quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Uma (muito) curta narrativa

Já havia caminhado até a metade da ponte. Tinha uns 60 e tantos anos e não aguentava mais viver. Tinha se tornado desinteressante. Parou. De lá, mirava o Brasil à sua direita. A casa que o desprezava. Não queria mais pensar. Se jogou.

Teria ficado muito satisfeito se a curta narrativa de sua morte terminasse aí.
Não terminou. Um navio que pesquisava sei-lá-o-quê no rio passou em baixo da ponte exatamente quando deveria atingir a água. Estava olhando o rio, desequilibrou, algo assim, foi o que disse. Mas não conseguiu conviver com o fracasso olhando para si todo o tempo. Eliminou as chances de dar errado. Pegou um revólver, trouxe até a têmpora esquerda (apesar de destro) e atirou.

Na próxima vez, lhe darei, palavra de escritor, a morte que queria.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Estudo sobre a natureza humana.

... e ainda tem aqueles para quem ser canalha é como um dom, uma dádiva natural. Pra mim, não. Eu tenho que me esforçar. Algumas vezes, alcanço um certo êxito.

sábado, 5 de setembro de 2009

Love Story.

Você me ama?
Claro.
Me ama muito?
Pode parar...
O quê?
Eu sei onde você vai chegar. E já tou avisando que pode parar.
Sabe nada.
Você vai me pedir em casamento. E estou dizendo que não faça isso.
Você fica julgando as pessoas, tá vendo? Antecipando o que eu vou falar.
...
Ok. E qual o problema em te pedir em casamento?
Meu amor, você sabe o que eu penso sobre isso.
Não te entendo. A gente acaba de chegar da festa de casamento da sua prima. Você diz que foi tudo lindo. Por que a gente não pode ter o mesmo?
Porque eu não acredito nisso. Você sabe muito bem.
Você disse que ela ia ser muito feliz.
E você queria que eu dissesse o quê, Marco? Parabéns, prima. Você vai ser relativamente feliz pelos próximos 3 anos, quando vai chegar uma estagiária nova na empresa, ele vai começar a comer ela e você vai ficar mal pra caralho. É isso que tu queria que eu dissesse?
Vânia... já tem 4 anos que a gente tá junto e eu nunca comi estagiária nenhuma na empresa.
Eu não disse isso, meu bem.
Não. Mas tá dizendo que se a gente casar vai acontecer.
Não disse isso também. Eu só acho que ela pode ser feliz no casamento dela. Mas casamento não dá pra mim.
E pra mim, Vânia? Já pensou que pode dar pra mim?
Já. E não posso querer que você encare as coisas de modo diferente por minha causa.
Eu quero me casar.
Baby, eu não quero. Se essa é a única maneira de continuar numa relação pra você, você vai ter que ir embora.
É isso mesmo que você quer?
...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Will

Quando eu morrer, não me enterrem. Queimem meu corpo. Levem minhas cinzas por todas as partes. Joguem-nas ao vento. Joguem-nas ao mar. Façam-nas chegar em Buenos Aires. Mar del Sur, aos pés da Virgencita. Não condenem à prisão este corpo que tanto se priva de movimento.

sábado, 22 de agosto de 2009

Pô... eu queria te pedir desculpas. Sabe o que é? Eu ainda não em acostumei a ver você com ele. É estranho. Já faz tempo... sei lá... dezembro, acho. Eu poderia nunca mais voltar. Encontrar aquela companhia de teatro, lembra?, e ficar lá. Você brincava com isso. E esqueceu o cigarro dentro do carro. Eu vi e não achei que fossem seus. Hoje, sabendo o que viria pela frente, não teria avisado de qualquer maneira. Os teria guardado comigo. Agora, o carinho disfarçado em soquinhos, o tesão, a violência, o sexo, o piercing no nariz (quem te deu a idéia de colocá-lo?)... tudo... pô... é tudo dele. Cê me entende? Nem precisa. O problema é que você era a relação perfeita. Não tínhamos uma relação propriamente? Ok. Quase perfeita. But... I choose no face to look at, I just happen to be here, and that's ok. Isso não impede que meus olhos go looking for flying saucers in the sky. Acho que é por isso que ainda não me acostumei. Ainda vejo flying saucers onde não há nada. C'est la vie. Os cães ladram e a caravana passa.

Passemos bem.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

What's up, doc?


Como você está? Mal, respondo sem olhar para o médico. Então, sua médica sugeriu uma licença de quinze dias. Como você começou a se sentir assim? Não sei, ainda sem o olhar. Veja bem, as doenças do psiquismo se manifestam por algumas razões. Ninguém está bom em um momento e, no outro, passa para o outro lado. Levanto a vista pela primeira vez. Mordisco a cenoura que seguro na mão direita e com a esquerda acaricio a orelha de coelho de pelúcia que prendi à testa. O que o senhor espera que eu diga? "What's up, doc?". Salto sobre a mesa e me aproximo da cara sebenta. Coloco meus olhos bem próximos às lentes engorduradas dos seus óculos. De perto, doc, ninguém é normal. Se levarmos em conta que eu não saí do meu lugar, quando o senhor passou para o outro lado, doc? Caminho lentamente de volta até à cadeira onde estava sentado. Novo salto e estou onde, aparentemente, sempre estive. Ofereço-lhe um pedaço da minha cenoura. Ele não quer. Perde o respeito que eu ainda lhe nutria.

Está aqui a sua licença. Coloque o seu sono em dia.

Colocarei, doc... colocarei.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Esqueci de dizer que o post abaixo é dedicado para as três pessoas para quem eu quero dedicá-lo.